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Papéis sociais vs Farsa

Diziam-me há dias – pessoas que me conhecem há vários anos – que às vezes pareço representar.

É verdade que sim. Represento diferentes papéis, dependendo daquela que for a minha função nas circunstâncias. E não fazemos todos o mesmo? Bem, se não fazemos todos o mesmo, quem não faz deveria pensar nisso.

Tenho o papel de filha, de irmã, de neta, de sobrinha, de tia, de amiga, de melhor amiga, de conhecida, de desconhecida, de funcionária, de… (já perceberam a ideia, certo?). E para cada um deles há sempre uma expectativa associada e um desempenho próprio na relação com os outros. Não deixo nunca de ser eu, mantenho os mesmos princípios, as mesmas crenças e opiniões, mas a forma com que converto tudo isto em actos adapta-se. Claro que sim.

Profissionalmente é-me exigido que compreenda todos os interlocutores e que fale para eles de forma a fazer-me entender, de forma a passar as mensagens que eu quero passar. Na minha vida pessoal (que eu não separo como se de um mundo à parte se tratasse), é igual. Isso quer dizer que estou a fingir o tempo inteiro? Não. Não é disso que se trata. É por isso que tenho repetido a palavra “forma”.

Podemos obter um mesmo resultado final chegando até ele de diferentes formas. Tanto que cada pessoa pode lidar com as situações à sua própria maneira e atingir o mesmo resultado que tantas outras. A lógica é exactamente a mesma. E é isto que eu faço (irracionalmente). Percebo o espaço à minha volta e tento “falar” na linguagem que melhor se adapta a cada situação, favorecendo a que aquele seja um espaço no qual quero estar. É tão simples como perceber quais as capacidades e apetências que tenho que podem ser úteis para cada cenário. Não é fingir, é ir buscar as melhores ferramentas (internas) para “resolver” o presente.

Às vezes é preciso alguém que faça rir, outras vezes alguém que saiba ouvir, noutras alguém que saiba aconselhar, noutras alguém que passe despercebido, noutras alguém que questione, e daí em diante. E é válido que para todas estas necessidades se possa enquadrar uma mesma pessoa, basta que ela use as suas ditas “ferramentas” e que, à sua forma, responda a todas elas. Claro que é preciso alguma “agilidade” para o conseguir fazer e, principalmente, um apurado auto-conhecimento, já que temos um leque de ferramentas único e intransmissível.

Perigos disto? Se não soubermos bem quem somos podemos facilmente cair numa espiral de farsa permanente. Face a isso, acho que o básico será darmos espaço a que outros também venham colmatar as nossas necessidades. Que demos espaço para nos animarem, para nos ouvirem, para nos criticarem, para nos amarem. Não somos sempre a solução dos problemas, também podemos ser nós os promotores dos problemas. Mas é assim mesmo que funciona.

É a vida a equilibrar-se a ela mesma através da socialização.