Debates Soltos Parágrafos

Para falar do que se fala

Há uns tempos atrás comecei a escrever algo que expõe a minha indignação com a incoerência do racional humano. Vinha de algo relacionado com o panorama político nacional, com as trocas de galhardetes entre Governo (ou “geringonça”) e oposição. Mas entretanto acabei por não publicar. Ficou por aqui perdido entre rascunhos.

Mas agora, depois de acontecer “o impensável”, aquele desabafo ganhou uma nova e inegável razão de ser. A inquietação do mundo e o seu dito “novo e absurdo rumo” não podem ser vistas com olhos de choque. Afinal, os acontecimentos já estavam matematicamente previstos. E nada que tenha que ver com sondagens.

Que criatura é esta que, auto-intitulando-se “animal racional”, tão parcas vezes recorre à racionalidade? Porque não aprendemos com a história? Porque nos deixamos levar nos ciclos e terminamos sempre no ponto em que começámos? Há tantos registos, detalhados registos, sobre todos os passos dados ao longo da existência da civilização que me parece inconcebível admitir cairmos sempre nos mesmos erros, vezes e vezes sem conta.
O humano é realmente limitado, com fracas capacidades de desenvolvimento. Estamos tão centrados na nossa divinal existência que nem nos damos espaço para perceber o quão limitados somos. E o pior é que não consigo acreditar que algum dia será possível sairmos desta bolha imperial ilusória. E, como tal, nunca vamos tomar consciência das nossas limitações e, consequentemente, nunca poderemos descrever-nos como fieis depositários de sabedoria, conhecimento ou inteligência. Temos que admitir que não somos dignos do título a que nos propusemos. As provas são irrefutáveis.

Não posso deixar de regressar à teoria de que nós escolhemos não saber muitas coisas. Tem que ser isso, porque não faltam provas claras, explícitas para eruditos e leigos, acessíveis em todos os meios de comunicação e mais alguns, com opiniões ou apenas exposição de factos. Temos todas as ferramentas do nosso lado, mas mesmo assim escolhemos(?) o irracional. Qual é a ideia deste animal? Para que ponto de partida estamos a levar este ciclo?

Brexit e Trump. Terminamos 2016 com o mundo virado do avesso onde, aparentemente, uma maioria silenciosa e muito perigosa decidiu emergir com extremismos e ideias individualistas muito perigosas. Ideias que não são novas, que já combatemos noutros tempos, que já provámos não nos levar à bonança. Mesmo assim, aqui estão elas novamente…

Contra tudo o que se prevê, ainda tenho esperança que a matemática histórica falhe desta vez. Espero mesmo que sim.