Parágrafos Pessoal

Até os corações gelados sabem bater

Posso parecer um tanto ou quanto insensível e não parecer ter muito mais do que um coração gelado.
Até pode parecer. Mas não é bem assim.

Às vezes até a mim me engano. Finjo que nada me toca, que estou imune a sentimentos. Mas depois contam-me romances da vida real e deixo as minhas horas de sono para passar horas a ouvir cada pormenor.

A verdade é que, por muito que não pareça, as histórias de amor mexem comigo. Como já devem saber a esta altura, não desejo ter namorado/marido, mas não é por isso que não tenho saudades de me apaixonar. E é isso mesmo que me faz derreter com romances. No fundo, relembra-me um sentimento que há muito tempo ninguém desperta em mim.

Uma amiga telefonou-me no outro dia para me contar novidades. Havia saído de uma relação de vários anos de uma forma nada previsível, mas tinha coisas boas para me contar. Tal não foi o meu espanto quando me disse que tinha conhecido uma pessoa há 2/3 semanas e que estava completamente apaixonada. Foi a melhor coisa que ela me podia ter contado! Começou pelo início, falou-me sobre como se conheceram e como as coisas evoluíram, e acabou dizendo-me que tinha finalmente encontrado “um homem” – senhores que estão a ler esta publicação, prometo que vou falar sobre isto numa publicação futura.

Independentemente do tempo que passa desde que se termina uma relação – existe algum período socialmente estipulado de luto para uma relação?! -, o que importa é perceber que a próxima tem sentido e não se trata apenas de um backup plan ou de uma vingança absurda. E no caso dela faz todo o sentido. É o tom de voz com que fala, são os suspiros entre os adjectivos que usa para o descrever, o sorriso de orelha a orelha que tem agora lugar cativo naquela cara, tudo! A miúda está caidinha de amores e é fabuloso poder testemunhar isso. Por aqui, eu vou vibrando com a história quase tanto como ela, porque realmente da-me todo o prazer saber que uma amiga minha está a viver um momento tão genuinamente feliz.

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Fonte: Youtube

Depois há aqueles filmes românticos que tocam em coisas como o  “destino” e outras semelhantes tais, estão a ver? O verdadeiro entretenimento está em ver-me assistir a esses filmes. O último que vi foi através de uns olhos bem aguados, o recentemente estreado “Me before You”. Foram umas boas lágrimas, um nariz que só se controlou com uns quantos lenços e um soluçar que até os vizinhos do lado devem ter ouvido. Não foi bonito.

Mas é bonito! O romance e as histórias de amor são coisas maravilhosas e felizes, mesmo quando têm um fim. Provavelmente gosto assim tanto destas histórias porque são a forma mais aproximada que tenho de viver estes estados de cumplicidade. Tenho saudades de viver uma que seja minha, mas enquanto isso não acontece, vou acompanhando e envolvendo-me alegremente na de outros.

Deveria ter vergonha de admitir isto? Claro que não. Como eu há milhentas outras pessoas que fazem o mesmo – ao invés de andarem ciclicamente a cair nos braços de qualquer um, fantasiando numa paixão louca que em duas ou três semanas já acabou. Além disso, até os enamorados gostam de ver estas lamechisses.

Não é fácil apaixonar-me. Este sentimento que tento reviver saudosamente só aconteceu uma vez nos meus 23 anos de existência. Realmente não é muito, mas é o suficiente para me permitir dizer que este coração de gelo, quando derrete, consegue ser dos mais apaixonados que alguma vez vão conhecer.