Vanessa Nunes

Parágrafos Pessoal

Não quero ser mãe

Esta é daquelas publicações que me pode valer uma espera à saída de casa.

Às pessoas extremamente religiosas e/ou conservadoras, avisa-se desde já que esta publicação não teve nenhum erro no que respeita ao seu título e irá tratar exactamente o que a frase enuncia. Por isso, se forem sensíveis ao assunto, recomenda-se que abandonem o post para não alimentarem a vossa indignação – e não vos suscitar o desejo de me esfolar viva. Vá, falamos noutro dia.

E agora sim, vamos directos ao ponto.

Não faço questão de ser mãe, não é um desejo meu. Não tenho aquele “chamamento da natureza” que a grande maioria das mulheres diz ter. É certo que sou nova, mas com a minha idade e bem antes da vida adulta, amigas e conhecidas já comentavam o sonho de um dia virem a ser mães. Honestamente, eu nunca o tive, mas cheguei a dizer que tinha.

Formatada para a norma, claro que teria que assumir que o “certo” seria um dia vir a ser mãe. E a verdade é que esta noção de que não tinha nenhum particular desejo pela maternidade só me caiu há pouco tempo. Foi uma consciência que veio evoluindo em mim, assim como quem não quer a coisa. Comecei por perceber que não seria por falta de namorado ou marido que deixaria de ser mãe, até que me perguntei, sem rodeios, se isso seria de facto importante para a minha vida.

A brincadeira do “vou ficar para tia” começou a ganhar peso e começou a aumentar no número de vezes invocada. E depois “caiu-me a ficha”, percebi que aquilo não era afinal uma brincadeira, era de facto uma possibilidade que de forma alguma me desagradava. Que mal há em ficar para tia? Nenhum. E tem tudo a ver comigo.

Quando o meu sobrinho nasceu houve um bocadinho mais de luz nesta cabeça. Adoro aquela pequena criaturinha, tenho-lhe um amor inexplicável, mas não me fez em momento algum desejar um dia ter um bebé a meu cargo. Além disso, a própria gravidez é um estado alien – uff, ainda bem que mandei os mais sensíveis saírem da publicação logo no início.

Tudo o que a mulher sofre para o bebé crescer dentro de si e depois nascer é de deixar qualquer família doida. Sim, não é só a mulher que sofre com o processo. Marido/namorado, pais, irmãos, outros filhos, vai tudo a reboque, porque neste estado a mulher é que comanda. Quer pelas suas necessidades de atenção redobradas, quer pela alteração das suas hormonas (desejos, alterações de humor, etc. etc.). Gravidez não é doença, mas para a maior parte das mulheres é o equivalente a uma valente dor de cabeça que dura practicamente 9 meses. No meio disto tudo, só há uma coisa que realmente aprecio na gravidez (epa, ela afinal tem coração…): o brilho nos olhos, aquela felicidade singular que é emanada a cada micro-segundo pela mulher, pelo pai da criança, por toda a família. Aquele estado de êxtase que demonstra a união e o desejo de toda a família.

Eu não sou maternal, não sou fascinada por crianças, não tenho especial apetência para conviver com elas ou cuidar delas. Simplesmente não me é natural. Se eu fosse um homem, estava tudo bem, não se colocaria a hipótese de estar a ser anti-natura, mas como sou mulher, já há uma série de problemas mentais graves que me poderão ser socialmente diagnosticados.

Recordo-me de alguns episódios em que abri a minha boca para expor isto mesmo. Não me chamaram de anormal, mas a cara de espanto, choque e repúdio não conseguiram disfarçar. “Como é que é possível?”, perguntavam. É o que sinto, meus caros. Para algumas a maternidade é um objectivo e um caminho para a felicidade, eu sinto que a minha felicidade pode perfeitamente não passar por aí.

Não digo nunca – já deixei de o fazer há muito tempo. Posso vir a sentir esse desejo, ou posso mesmo querer concretizar esse desejo à pessoa que está comigo. Mas uma coisa é certa: só terei filhos se perceber que isso fará parte da minha felicidade e nunca por uma pressão social como a que reflectia em miúda.