Formação Parágrafos Pessoal

Fracção 1/1.000

Sou uma sortuda. Uma grande sortuda.

Tenho o privilégio de trabalhar em algo que adoro e que me permite fazer coisas diferentes todos os dias. Pelo que testemunho quase todos os dias em casos de amigos mais e menos próximos, o meu caso parece ser 1 em 1.000.

O mercado de trabalho não está para brincadeiras, o país não nos deixa quaisquer alternativas, pelo que o meu verdadeiro luxo dos dias que correm é ter um trabalho que, sendo sério, se dá a brincadeiras. Frequentemente me deparo com coisas novas a aprender, capacidades a descobrir, desafios a agarrar, e isso é quase tudo [podem saber mais sobre a minha profissão aqui].

Cada vez mais tenho a certeza que um trabalho que me “enche as medidas” não pode ter nada de mecânico ou rotineiro. A exigência de capacidade criativa e “desenrascanço” tem que existir sempre, caso contrário vou acabar por me aborrecer.

É engraçado que desde pequenos nos formatam para que tenhamos que escolher uma profissão a seguir. Isso sempre foi um problema para mim, que me causou algumas amarguras, stress e uma boa dose de desespero ocasional nos tempos em que me vi obrigada a escolher uma área profissional. A ideia de, aos 17 anos, ter que escolher o que ia fazer para o resto da minha vida era completamente castrador e muito assustador para uma miúda que só concebia ter tudo sob o seu controlo. Depois acabei por perceber que a minha formação neste sentido estava desactualizada. O mundo de hoje é muito diferente: não há certezas, não há “para sempre”, não há a mesma noção de carreira que os nossos pais conheceram. A nossa geração tem que ser camaleónica, quer porque as opções de trabalho não são muitas, quer porque, de facto, o mundo de hoje gira muito mais rápido do que o da geração anterior, e cabe-nos a nós acompanhar essa velocidade para nos mantermos actualizados – e actuais.

Acho que a própria mentalidade portuguesa precisa actualizar-se nesse sentido. Ainda somos muito preconceituosos e ainda resta muito da cultura de títulos. Mais do que ser feliz na sua vida profissional, de gostar realmente do que se faz, as pessoas ainda andam muito focadas em ser engenheiros, doutores, e isso não garante nada; nem trabalho garante. O que nos importa é o prestígio que nos dará dizer que somos médicos, arquitectos, advogados, e todos aqueles trabalhos de colarinho branco, o verdadeiro prazer do dia-a-dia no trabalho fica para segundo plano. E não me interpretem mal, o meu trabalho também só resulta de uma passagem pela universidade, mas porque era o que realmente fazia sentido para mim, tendo claramente sido a melhor opção.

Só acho que, mais uma vez, andamos mais preocupados com o superficial e menos com a nossa própria realização profissional e felicidade. Teria todo o prazer em fazer uma nova publicação sobre este mesmo assunto mas onde pudesse dar conta de que o meu caso é de facto 1, mas dos 1.000 que têm a mesma relação de paixão com o seu trabalho.